Consistência é a lição da maternidade que Francine Ferrari, CEO da Neobambu, levou para a vida profissional. Mãe de Enzo e Jullian, de 11 e 14 anos, a executiva se tornou ainda mais orientada a foco. No dia a dia como CEO, “eu forço foco e alinho com o time a prioridade do dia, o ‘leão’ que vamos enfrentar. Isso reduz ruído, acelera execução e evita desgaste. Para mim, liderança no varejo é foco, velocidade de decisão e uma operação que funciona com consistência, não pela dependência da presença da dona”, diz Ferrari.
A seguir, Francine compartilha sua visão sobre liderança, comportamento de consumo e os desafios de conciliar maternidade e presidência no varejo.
Você enxerga oportunidades no varejo para produtos ou serviços que realmente facilitem a vida das mães? Alguma tendência que chamou sua atenção?
O varejo que vai ganhar a confiança das mães é aquele que economiza tempo, reduz decisões repetitivas e aumenta a sensação de segurança. A oportunidade está em vender menos itens isolados e entregar sistemas que organizam a vida: agenda familiar compartilhada, comunicação escolar centralizada, delegação de tarefas e automação da semana para reagendar quando o dia sai do plano. Na segurança, a evolução está em alertas inteligentes no celular, como notificações de chegada ou ausência inesperada, que só acionam quando algo foge do combinado. E no consumo, serviços como concierge com curadoria e reposição automática do recorrente tiram fricção e devolvem previsibilidade.
Como a maternidade mudou a sua visão sobre liderança e tomada de decisão no varejo?
A maternidade consolidou uma mudança prática na minha liderança: tempo virou um recurso crítico. Eu elevei processos, delegação e previsibilidade para a empresa funcionar mesmo quando eu não estou presente. Eu já era objetiva, mas fiquei ainda mais: em vez de abrir várias frentes, eu forço foco e alinho com o time a prioridade do dia, o “leão” que vamos enfrentar. Isso reduz ruído, acelera execução e evita desgaste. Para mim, liderança no varejo é foco, velocidade de decisão e uma operação que roda com consistência, não por dependência da presença da dona.
Quais foram os maiores desafios de conciliar maternidade com a presidência de uma empresa, e como você superou esses obstáculos?
O maior desafio foi administrar duas urgências ao mesmo tempo: a rotina das crianças, que muda sem aviso, e o negócio, que exige decisão rápida e consistência. O peso real é a troca de contexto e a carga mental. Eu superei isso formando uma segunda linha de liderança, com autonomia dentro de limites claros, e mantendo alinhamentos curtos para garantir direção mesmo quando eu me ausento. E adotei uma regra pessoal: problema que aparece, eu resolvo e encerro, para não levar pendência para casa.
Que lição da maternidade você aplicou na gestão da sua empresa ou na forma como lida com equipes e clientes?
Consistência. A maternidade reforça que comportamento se constrói com clareza e repetição, não com discurso. Eu levei isso para a empresa com expectativas bem definidas, feedback rápido e limites objetivos. Com clientes, aplico a mesma lógica: alinhar escopo e prazos antes, documentar, cumprir o combinado e, quando há ajustes, conduzir com transparência e solução.
Você percebe mudanças no comportamento das mães consumidoras? Como o seu negócio se adaptou ou poderia se adaptar a essas demandas?
Vejo mães mais pragmáticas e menos tolerantes a perda de tempo. Elas pesquisam mais, comparam mais, cobram clareza, querem garantia e querem resolver sem burocracia. Para acompanhar isso, o varejo precisa de atendimento consultivo com respostas objetivas, prazos confiáveis e pós-venda realmente resolutivo. No meu negócio, isso se traduz em especificação técnica clara, alinhamento de expectativa antes da compra e acompanhamento previsível de pedido e instalação. No alto padrão, sustentabilidade, origem e rastreabilidade viraram critério de decisão, e até as crianças trazem esse tema para dentro de casa, elevando a exigência por prova, não discurso.
Existe algum estereótipo sobre mães líderes que você sente que ainda precisa ser quebrado dentro do mercado de varejo?
Ainda existe o estereótipo de que mãe líder é menos disponível, menos comprometida ou menos preparada para posições de alta pressão. Na prática, acontece o oposto. Muitas mães se tornam gestoras extremamente eficientes porque operam com tempo limitado, priorizam com rigor, delegam com clareza eresolvem com velocidade. Quando o varejo valoriza execução e consistência, maternidade não é obstáculo; é vantagem competitiva.
Que conselho você daria para outras mães que desejam ocupar posições de liderança, conciliando carreira e maternidade semabrir mão denenhuma das duas?
Pare de tentar fazer tudo sozinha. Estruture uma rede de apoio, padronize processos, delegue sem culpa e proteja seus não negociáveis. Seja transparente com o time sobre prioridades e critérios de decisão, e com você mesma sobre limites. Liderança não é presença constante; é clareza, cadência e responsabilidade. A maternidade pode tornar sua gestão mais estratégica quando você trata tempo e energia como recursos de alto valor.